
Confesso que não li A divina comédia, de Dante Alighieri, mas sei que há casos em que a ficção, mesmo com toda a liberdade de criatividade, nunca se aproximará da terrível e temível realidade. Tive essa convicção no episódio de Vilma (vil + má) Martins, aquela que roubou duas crianças de maternidades de Goiânia e Brasília. Nem Janeth Clair jamais pensou em algo tão diabólico e improvável. E real.
A tragédia que se abateu sobre o Haiti me faz pensar a mesma coisa. Nunca, jamais nenhuma definição que se tenha tentado fazer do inferno (não que eu acredite em sua existência), por mais variados motivos e por mais instruídos e criativos padres e pastores, chegou perto do que ele é em sua totalidade: uma nação desesperada, convivendo com o caos absoluto, que dispensa comentários e adjetivos. Tenho me emocionado com tantas cenas da tragédia, principalmente as últimas, que mostram pessoas famintas e desesperadas se atracando para disputar comida. Isso me lembrou o Ensaio sobre a Cegueira, de Saramago. Mas não é sobre essas máscaras que caem, em caso de desespero, que quero falar.
Não bastasse a tragédia em proporções inimagináveis a que estamos assistindo, comovidos, temos de suportar a queda das máscaras que supostamente escondiam doses generosas de hipocrisia e preconceito. Primeiro foi o pastor americano Pat Robertson (do qual eu nunca tinha ouvido falar), dono de um canal de TV nos EUA, que disse que o terremoto foi provocado por um "pacto que os haitianos fizeram com o diabo para ficarem livres da França". Ele disse ainda que a tragédia foi consequência de uma "maldição" que paira sobre o país.
Mais grave ainda foi o asqueroso episódio da entrevista do cônsul do Haiti no Brasil, George Samuel Antoine, que, sem saber que estava sendo gravado, disse que o terremoto era "bom para nós", porque tornava o Haiti conhecido, para concluir: "Acho que de tanto fazer macumba, não sei o que é aquilo. O africano, em si, tem maldição. Todo lugar que tem africano tá foda".
Não preciso, aqui, fazer um resgate antropológico de todo o preconceito e a intolerância que as religiões cristãs arraigaram contra as religiões e os costumes vindos da África com os escravos. Mais grave do que ver as máscaras caírem e as desculpas esfarrapadas - o embaixador disse que tem dificuldades com o português, apesar de morar há 35 (!!!!!!) anos no Brasil -, é perceber que há pessoas que concordam com esses absurdos. Pessoas supostamente esclarecidas e instruídas, jornalistas (ô, racinha!) entre elas. Isso, sim, é uma maldição!
Saí do jornal hoje enxugando as lágrimas pelo povo haitiano, em particular, e pelos negros, de uma maneira geral, por serem vítimas de um preconceito tão virulento. Não me contive, fiz algum comentário sarcástico sobre a "culpa" da "negrada macumbeira", diretamente para uma colega, evangélica, que pensa exatamente assim. Foi um desabafo regado a lágrimas, uma tentativa besta de, com alguma agressividade, fazer acordar a ela e aos outros que pensam assim. Só aumentou minha dor e engrossaram minhas lágrimas. Ainda corro o risco de ser chamada de preconceituosa por ela.