segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Cheiros


Tenho rinite alérgica e pouca tolerância para cheiros. Perfumes adocicados me deixam com náuseas e dor de cabeça. Não é frescura. A cabeça dói mesmo. Na semana passada, alguém deixou nosso telefone da edição na TBC impossível de usar. Nem álcool tirou o maldito cheiro do maldito perfume doce.

No mesmo dia, acho, o banheiro estava cheirando a água sanitária, ou, mais precisamente, a Q-Boa. Que maravilha! Adoro o cheiro de Q-Boa. Cheiro de água com cloro. Cheiro de limpeza. Não sei por que insistem em usar produtos perfumados para limpeza. Por que não usam apenas água sanitária?

Não uso perfume, mas gosto do cheiro de lavanda. Não é só porque lilás é minha cor favorita. Já usei esmaltes nas unhas em um tom de lilás que é igualzinho ao das plantações de alfazema. Parecia até que o esmalte tinha o cheirinho de lavanda.

Gosto do cheiro de comidas sendo preparadas, principalmente as que eu preparo, mas devo dizer que meu nariz sempre coça em restaurantes (terrível isso) por causa da profusão de cheiros, imagino. Tenho de me policiar para não ficar cheirando tudo o que me oferecem. As pessoas não saberiam entender.

E por falar nisso, estou com duas velinhas aromáticas, que trouxe da comemoração do aniversário de meu amor. Ele perguntou se eu as usaria, disse que eram para lembrança. E são. E estão perfumando meu cantinho ao lado do computador, por incrível que pareça. Uma, azul, é de gerânio. A outra, de limão. Por falar em lembrança, como tenho me lembrado...

domingo, 29 de novembro de 2009

As aflitas


Minha crioula fez hoje a prova da primeira fase do vestibular da UFG. Para Educação Física, o curso que ela adora, em Catalão. Pediu a minha mãe para levá-la até o local de prova. Reclamou que a prova só poderia ser entregue a partir das 17 horas, horário em que o Flamengo, seu time do coração (como gosta de futebol!) entraria em campo para chegar à final do brasileirão em primeiro lugar.

No meio da semana, quando eu estava agoniada, lendo o edital e recitando o que ela deveria levar e o que não poderia, ela deu a senha: "mãe, relaxa". Ela tinha razão. Eu fiquei mesmo ansiosa. Mas como não ficar, sabendo que meu bebezinho (!!!) estava prestes a fazer as provas do maior vestibular do Estado? Isso sem falar que ela está no segundo ano e está apenas experimentando...

Hoje eu estava de plantão no jornal. Junto com a Cristina Cabral, fotógrafa, minha grande parceira de Aruanã e Rio Araguaia e amiga querida. A Cris é mãe do Guilherme, que tem a mesma idade de Joaninha e estudou com ela, no Instituto Maria Auxiliadora, desde o jardim 1 até o 9º ano. Depois, ela foi para o Visão e ele para o WR, respectivamente o segundo e o primeiro colocados nos últimos rankings do Enem em Goiás. Eu não gosto do WR, acho que lá o esquema é de quartel do Exército, mas é "inevitável" para quem quer estudar Medicina, como o Guilherme.

Bem, eu e a Cris hoje estávamos engraçadas, as duas agoniadas, de plantão, com as crias fazendo a prova do vestibular pela primeira vez (eles já fizeram a primeira do PAS da Universidade de Brasília). Saímos, cobrimos a corrida contra o diabetes (que o jornal, seguindo o manual que eu considero ridículo do Estadão, grafa como "a diabete", uma diabinha só, mas eu me recuso a escrever errado), fizemos o Aqui e ali, com seis notas, e fomos para a abertura dos portões da UFG. Ela, ligando para o Sérgio, o marido, para saber se estava tudo bem, se o Guilherme tinha almoçado, dando dicas sobre o trânsito e como chegar ao local de provas dele. Eu, ligando para Catalão, com todo o cuidado para não estressar ainda mais minha filhinha.

No fim, correu tudo bem. Joana achou a prova relativamente fácil (sinal de que estava bem preparada), gostou da experiência. Eu, mais calma, também estou vivendo e assimilando tudo e pensando em formas de não ficar ainda mais ansiosa no próximo ano. Mas ainda tem o resultado da primeira fase e, quem sabe, as provas da segunda...

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Autonomia


Gosto de várias interpretações de músicas de Cartola, principalmente por Ney Matogrosso e Beth Carvalho. Mas confesso que prefiro Cartola por Cartola (na foto, com seu grande amor, dona Zica). Assim como Chico por Chico, apesar de algumas gravações antológicas de músicas suas.

Uma música de Cartola, em especial, tem me acompanhado nos últimos dias, por vários motivos: Autonomia. Ela já me fascinava, mas ouvir a música preferida enroscada no grande amor é uma experiência e tanto. Mais ainda por ver que, mesmo sem ser tão apaixonado por Cartola como eu, ele baixou uma seleção maravilhosa dele em seu iPod.

Memória


Minha memória vive me pregando peças, o que não é novidade. Mas, geralmente, quando alguém me lembra de alguma coisa que estava bem guardadinha, eu acabo conseguindo evocar alguma lembrança, ainda que palidamente. Desta vez não.

O que vou contar é algo que sei que aconteceu comigo porque meu Marciano não mente e ele se lembra nitidamente do ocorrido, tanto que ainda dá boas risadas quando se lembra de minha reação, no auge dos meus 13 anos. Eu nem consigo me envergonhar de fato porque, por mais que me esforce, não consigo me lembrar.

Aconteceu em um encontro do grupo de jovens da Igreja Católica que nós frequentávamos em nossa querida Catalão. O então Frei Irineu (hoje não é mais sacerdote), em uma palestra, fez uma alusão a algo que seu antigo professor de Teologia falou. Quando ele disse o nome do professor, Boff, eu caí na risada. Não sei se minha memória apagou essa lembrança por causa da admiração que hoje tenho por Leonardo Boff (que cultivei desde que, bem naquela época, fiquei curiosa com a perseguição do Vaticano à sua Teologia da Libertação) ou se foi por causa do olhar com que Irineu me fulminou (do qual também não me lembro).

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Três

"Posso te beijar?"
"É claro que pode."

"Quer ser minha amante?"
"Sim."

"Quer ficar comigo para sempre?"
"Para sempre."

domingo, 15 de novembro de 2009

Sandra Cordeiro

O que Nara e Sandra têm a nos alertar? Seus dramas, suas histórias de mulheres que vivem, lutam, trabalham. Jornalistas, mulheres, mães de família (Nara não teve filhos, Sandra tem), corajosas.
Que Sandra Cordeiro tenha toda a coragem de que vai precisar, com certeza.
Ela descobriu, na semana passada, que terá de lutar contra mais um inimigo, e muito cruel: um câncer de mama.
Nara morreu, aos 36 anos, vítima de câncer de ovário. Quando soube, era tarde, já havia metástases. Sandra viverá. Descobriu seu câncer, seu carma, sua cruz no início.
Sairá desta. Mais fortalecida. Mais bonita. Mais ela.
Ficaremos na torcida por ela.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A porcina e o lindinho


Início de tarde na redação do jornal. Ouço alguém comentando sobre o Adriano. Pergunto onde está ele, que ontem estava de folga, e hoje, até por volta de 15 horas, não havia se materializado. Fico sabendo que está com gripe suína, tomando tamiflu desde ontem. Ligo para ele. Sim, ficou doente no dia de sua folga, que azar. E só deve voltar a trabalhar na próxima semana. O feriadão, bem, seria mesmo sua folga. Que azar.

A gripe porcina pegou o Adriano Marquez Leite, nosso mascotinho, queridinho e lindinho da Editoria de Cidades. Também nosso caçulinha, de 23 aninhos. Liguei para ele. Ele estava bem, conversando normalmente. Perguntei, é claro, se teve vontade de comer lavagem (!!!). Ele disse que não. A Patrícia Drummond disse que ele ficará ótimo filmando a sequência de Baby, o porquinho atrapalhado. Rosana lembra que ele disse que "todo mundo pegou gripe suína", menos ele. Atendido.

Ainda bem que tomando o tamiflu ele está se sentindo bem. Aí lembrei do dia que o Almiro Marcos falou que o Bruno (Rocha Lima, repórter da Política) melhorou muito com o tamiflu. "Em dez horas ele perdeu a vontade de comer lavagem". O Adriano não entendeu nada. Pensei comigo: "O Almiro foi criado no Varjão, eu em Catalão, ambos com uma certa origem rural". E expliquei para o lindinho o que era lavagem. Ele disse que sabia. Só não havia conseguido entender o nexo da história (gripe de porco e lavagem). Ao que o Almiro lascou: "loiro!!!"

domingo, 18 de outubro de 2009

Rubinho


O treino da Fórmula 1 de hoje foi emocionante. Confinados na redação do Popular, preparando a edição de amanhã, nós, repórteres, repórteres fotográficos, editores e diagramadores, nos comportamos como qualquer outra categoria profissional, nesse caso: todos os vários aparelhos de televisão ligados no treino oficial. Depois que Button ficou em 14º e Rubinho ficou com a última vaga entre os 10 que iriam disputar o grid de largada, aí a coisa ficou quente.

Quando percebi, estávamos todos amontoados em frente à TV da editoria de Capa. Todo mundo torcendo pelo Rubinho. Alguns contra, claro. O Reche ficava o tempo todo pedindo para ele não deixar o carro apagar. O Adriano Godoi para ele não bater. No final das contas, ele conseguiu o que ele mesmo classificou como "impossível": a pole no GP do Brasil, que será disputado hoje.

Quando ficou definido que ele largaria em primeiro lugar, todo mundo bateu palmas, eu também, e depois olhei em volta e tive a pachorra de contar: eu era a única mulher no meio de 16 homens. Onde estavam as mulheres da redação hoje, nós, que somos maioria?

Sandra


Ontem à noite, depois de plantão no fechamento no jornal, estava com a TV ligada em casa, no Jornal Nacional, e me chamou a atenção a cobertura da guerra entre polícia e traficantes no Rio de Janeiro, que terminou com um helicóptero da PM abatido e 15 mortos, segundo mostra a última reportagem atualizada da Folha de S. Paulo. Mas mais do que a história do confronto, que eu já havia visto por agências no jornal, o que me prendeu foi a matéria de Sandra Passarinho.

A veterana repórter da TV Globo, como sempre, deu show de texto perfeito, despretensioso, e entrevistas com moradores dos morros atingidos. Ela estava lá, no front, não fez texto em cima da apuração de focas, como é tão comum. Achei o máximo. Assim como fico embevecida quando Neide Duarte sai a campo, com seu texto igualmente despretensioso e tão tocante. Sabem ver o essencial, talvez porque, ao contrário de 99% dos repórteres de TV, estejam mais preocupadas com o conteúdo do que com a forma. Não precisam se preocupar se vão sair bonitinhas na telinha. Isso realmente é importante (e essa frase me lembra o que de fato é importante na vida).

Não posso deixar de me lembrar de um editor de imagens que trabalha comigo e que tem o maior preconceito com idade (já disse isso a ele). Aliás, uma das coisas que me disse, quando eu comentei que havia me separado, foi que "a essa altura do campeonato", eu não "arrumaria mais ninguém para ficar comigo". Por minha idade, presumo. Na época eu tinha 36 anos. Mas, voltando às repórteres veteranas (afinal, já sou uma delas), ele não sabia quem era Sandra Passarinho. Creio que nem Neide Duarte, Sandra Moreira. Merval Pereira, Clóvis Rossi, Dimenstein, Noblat, então, nem pensar. Paulo Francis? hein???

O mais incrível é que procurando uma foto, só achei imagens muito antigas, de 1976 e 1978, inclusive no site da própria Globo. Então, vai esta, de uma entrevista de Sandra ao casal que comanda o Jornal Nacional, por ocasião do aniversário do programa. Rendo minha homenagem à competente colega.

domingo, 11 de outubro de 2009

Meu lindo Mascarado


Jorge Braga é mais do que um queridinho peralta. É um queridão. E ficou parecendo um menino quando foi chamado para receber o título de cidadão pirenopolino. Logo ele, que depois de alguns anos de abstinência, resolveu, neste ano, voltar a percorrer as ruas da centenária Pirenópolis como mascarado na tradicional festa das Cavalhadas.

Eu havia falado que faria tudo para ir, e quase deu certo para ir com o Hélio Costa, mas o raio foi que eu e ele estávamos de plantão no sábado de manhã. Acho que amanhã, no feriado, também. Difícil andar mais de 100 quilômetros de rodovia federal para ir a Piri, ver o "ninino lindo" receber a condecoração, fazer farra e voltar para trabalhar. Expliquei ao Jorge que não iríamos.

Eu já devia imaginar que meu queridíssimo aprontaria das suas. E aprontou. Chamado ao palco, apareceu vestido como sempre anda pelas ladeiras de pedra: como mascarado. Lindo, com sua camisa de poás e cinto idem. Uma calça de cetim azul e máscara de flores vermelhas. Quebrou geral o protocolo e, como sempre, levou alegria por onde passou. Depois, pelo que me contou pelo telefone, foi festa até amanhecer.

Eu amo Jorge Braga, meu "ninino lindo" mascarado.

sábado, 10 de outubro de 2009

Quase uma adulta!


Conversávamos sobre vestibular e sobre a opção dela de fazer as provas da UFG não na condição de treineira, mas de candidata, para ver como será seu desempenho. Ela tem consciência de que se passar, nada feito, mesmo porque a Justiça Federal não tem concedido liminares para que estudantes que ainda não concluíram o ensino médio atropelem as etapas. Melhor assim.

Mas o que me chamou a atenção foi outra coisa: no meio da conversa, não sei exatamente o contexto, ela tascou essa. "Mãe, tenho quase 17 anos". Como assim? Levei um choque. Meu bebê, meu leãozinho é quase uma pessoa adulta!!! Como assim? Na verdade, conversando com ela hoje de manhã, depois que ela chegou de uma festa (sim, hoje de manhã), percebi que ela está (e, devo confessar, já há algum tempo) mais para lá do que para cá. E lembrei do Ivair Lima, meu colega do Diário da Manhã, jornalista e psicólogo, que tanto me orientou durante minha gravidez, quando eu tinha ainda 22 anos.

Lima sempre me dizia para conversar muito, muito mesmo, com minha filhota. Mas, como pessoa íntegra que é, me avisou também para depois aguentar as consequências (cadê o trema que o maldito acordo ortográfico tirou?). Sim, ele me adiantou que estimulando a crioula desta forma eu devia me preparar para muitos questionamentos e confrontos. Foi exatamente o que aconteceu ao longo dos anos, mas a opção foi a melhor.

Tenho de agradecer ao Lima qualquer hora dessas.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O resgate de Lilly


Meu amor me convenceu de que tenho, sim, o direito a ter um Marciano para chamar de meu. Eu, que já sou invejada por aquelas bandas do Planalto Central. Imagine o que aconteceria comigo se as que me invejam soubessem que tenho, sim, um Marciano para chamar de meu. Seria alvo de vodus ou coisa pior. Toc, toc, toc.

Aconteceu no domingo. Uma das partes de nossa programação era passear no parque. Toda vez que penso nisso me vem à mente a música Passeio no parque, de Gilberto Gil. Mas não acabou em tragédia, pelo contrário. Só não foi mais doce por causa do calor infernal que fez em Goiânia neste fim de semana. Andamos, tomamos água de coco e escolhemos a sombra de um buriti na beira do lago para nos abrigarmos.

Conversamos muito e já estávamos quase indo embora quando percebemos uma movimentação anormal. Pessoas correndo e chamando por ela, Lilly. De cada extremo do lago, a uma distância de aproximadamente 500 metros, estava uma das donas/parentes, tentando chamar a atenção de Lilly, que havia caído no lago. Aos poucos, os frequentadores do Parque Vaca Brava interromperam o que estavam fazendo para se concentrar à beira do lago e torcer pelo final feliz da história.

Nós dois, que já estávamos de olho no caminho de volta para casa, nos detivemos para acompanhar o resgate. Não chegamos a ver Lilly, mas pelos gritos de sua dona, que estava a poucos metros de nós, concluímos que ela nadou na direção da ilha no meio do lago, habitada por aves. A certa altura, o rapaz que parecia ser o dono de Lilly tirou a camiseta e se atirou nas águas do lago. Foi em seu socorro. Ouvimos quando alguém sugeriu que ele a enrolasse na camiseta e concluímos que, estressada, ela resistiu ao resgate.

Felizmente, tudo acabou bem. Lilly foi resgatada. Neste momento, sua dona passou por nós falando com o irmão dela, que estava no colo, pretinho, para que ele se comportasse melhor do que a irmã. Lilly foi para a casa dela. Nós viemos para a nossa. Só não sei se o pós-resgate dela foi tão bom quanto o nosso.

domingo, 27 de setembro de 2009

Aviso ao Adriano


Aviso ao Adriano Marquez Leite: as teorias mirabolantes caíram por terra (não que eu tivesse alguma dúvida sobre isso). Desde agora, além das três palavrinhas mágicas, que a moça da floricultura desconhece, está escrito logo abaixo, pelo próprio, a seguinte frase no cartão: "Ass: seu Marciano".

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Rosas


Se eu disser que fui pega de surpresa, é mentira. Sabia, vagamente, que as receberia, mas não quando. Foi na quarta-feira, tive terapia com Valderez, cheguei no jornal "varada" de fome. Passei na cantina, peguei um sanduíche de frango com ricota, subi pra redação e comi. Quando o João Carlos me chamou para passar a pauta, respondi, com a boca cheia mesmo, que estava almoçando. Ele sorriu e entendeu.

Quando estava ouvindo do João Carlos o que ele queria da pauta, anotando em meu bloquinho, me chega o segurança, com as rosas (essas da foto). Colombianas, como soube depois. A Rosana reconheceu quando bateu o olho. Eu estava dividida entre o êxtase que me provocaram aquelas flores tão lindas e a reação da redação do jornal. Claro que fui aplaudida. Muitas brincadeiras e assovios. Mas não posso reclamar, já fiz isso em relação a colegas que passaram por essa mesma - deliciosa e doce - experiência.

Claro que vou guardar o cartão. As teorias mirabolantes de Adriano Marquez Leite são ótimas para o fato de meu amor não ter assinado o cartão (nenhuma pelo fato de ele morar em Brasília). Mas ele (meu amor) pediu para a moça da floricultura dizer, segundo ele mesmo me disse, "as três palavrinhas". Ela não entendeu. Ele repetiu. Ela não entendeu. Ele disse: "eu te amo".

sábado, 12 de setembro de 2009

Barraco no Judiciário


Pensando bem, deve ser efeito direto do que se vê quase diariamente no plenário e nos bastidores do Supremo Tribunal Federal, mas o barraco chegou a Goiás. Mais precisamente ontem. E eu adoro um barraco. Mas é bom ressaltar que o barraco em Goiás não envolveu cozinheiros nem jagunços. Foi, digamos assim, em um nível bem mais alto.
Escrevi uma matéria para o jornal na sexta-feira da semana passada mostrando a desocupação, às pressas, do anexo de um prédio alugado pelo Tribunal de Justiça para o funcionamento das seis varas da Fazenda Pública, para desocupar um andar do prédio do TJ para instalação dos gabinetes dos três futuros desembargadores. Os juízes e serventuários estão muito insatisfeitos com a mudança, consideram o prédio inadequado. Aí veio o engenheiro que o projetou e falou que corria o risco de cair por causa do peso de centenas de milhares de processos, alguns com até cem volumes.

Ontem, o presidente do TJ, Paulo Teles, foi despachar no local para mostrar que ele é seguro. Na cobertura encontrei minha amiga Aline Leonardo, que conseguiu ficar ainda mais bonita do que já era, se é que isso é possível. Bem, o tribunal contratou dois dos escritórios de engenharia mais conceituados do pedaço para fazerem a análise da situação e enviar o laudo ao Crea. Mas, como diria um certo Marciano, não é isso o que interessa. Quando começou a falar conosco, o desembargador soltou o verbo. E começou o barraco. Disse que os juízes insatisfeitos estão "agindo como criancinhas" fazendo as denúncias, acusou alguém de "desligar a luz do prédio" antes de sua chegada, e disse que o "cabeça do movimento" é candidato a presidente da Associação dos Magistrados (Asmego), mesmo sabendo que "não tem voto". Perguntei a quem ele se referia e ele apontou o juiz Ari Ferreira de Queiroz. Ah, disse que a OAB, que "está dando palpite", também está em época de campanha eleitoral, para concluir: "Estão querendo fazer disso um palanque".

Claro que a cada resposta dele eu ria deliciosamente, mas não descaradamente, óbvio, ele é o chefe do Poder Judiciário. Em minha cabeça martelavam as palavrinhas mágicas que dão título a este post. Depois, quando fui ouvir o Ari Queiroz, novamente me diverti contando tudo o que o presidente do TJ havia dito para saber o que ele responderia. Depois de me dar uma entrevista - surpreendentemente sem a mesma fluência verbal que o caracteriza -, ele disse que "a briga é boa".

Mas o que mais me divertiu foi a lembrança súbita, em plena coletiva da autoridade máxima do Judiciário goiano, de uma das várias mensagens trocadas ontem com o Marciano da minha vida, sobre um certo treinamento. Aí, sim, eu quase gargalhei durante a coletiva. Saí do prédio ainda rindo, enquanto procurava o carro do jornal para voltar à redação.

domingo, 23 de agosto de 2009

Orlandão 2


Hoje, conversando com minha mãe em minha casa, saquei que tinha de colocar outro post de Orlando Carmo Arantes, meu queridíssimo amigo e companheiro.

E o que me ocorreu foi de nossas ligações telefônicas: o Orlando era editor de Polícia do Popular, aí acabaram com a editoria, que foi absorvida por Cidades, mas ele continuou, o excelente repórter que era...

Ele ligava da rua para falar com Silvana (Bittencourt, na época nossa editora), e sempre era eu quem atendia. Começava o festival que lembrei hoje falando com Neguinho. De puta pra cima ele falava. De corno para baixo eu o chamava. E alertava que bichice naquela idade era horrível. E ele desfiava o rosário de insultos, depois me passava...
Quem de nós dois saberia do resto? Ainda bem que vivemos aquela época.

sábado, 22 de agosto de 2009

Orlando


Orlando Carmo Arantes faria hoje 56 anos. No próximo mês faz três anos que ele nos deixou. A saudade é imensa. Das piadas, das risadas, do grande companheiro e exemplo. Também de seus textos tão precisos, do estilo direto, de uma ironia incomparável, de seu entusiasmo quando chegava na redação com alguma grande matéria. Nesse aspecto, Orlandão nunca deixou de ser foca. Nos outros, era um veterano que tinha fontes que nenhum outro jornalista tinha.

Outro dia desses, numa delegacia, esperando um depoimento que durou a tarde inteira, contava algumas peripécias do Orlando à Nilce Moretto. Ela disse que eu tinha de colocar no blog. Tem razão. Hoje, no dia do aniversário do meu queridão, bonitão, cheirosão (e lembro de vários outros adjetivos, todos no aumentativo, que ele usava para se autointitular, mas são impublicáveis), vou contar uma das melhores.

Estávamos no corredor que fica na saída da redação, na época ele era bem mais estreito do que hoje, eis que passam o João Unes, editor-chefe do Popular, alguns diretores e um monte de gringos. Eram muitos mesmo, o corredor ficou apertadinho. Todos falando inglês. E o inglês macarrônico do Orlando era uma de suas maiores piadas. Então, o Orlando, me puxando pelo braço, se infiltra na turba de gringos, falando com aquele seu vozeirão: The book is on the table. Isso assim, repetidas vezes, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Quanto mais eu falava para ele parar, mais ele falava. Isso durou alguns minutos e foi engraçadíssimo. O João Unes ou não viu ou também achou divertido e fingiu que não viu, pois não tocou no assunto.

É Landão, the book is on the table.

domingo, 16 de agosto de 2009

Salto

Estou decidida: quero voltar a usar sandálias de salto. Desde que caí na porta do jornal e quebrei o pé esquerdo, há dois anos, e escapei por pouco de uma cirurgia, fiz apenas umas três ou quatro tentativas. Uma delas, durante uma viagem ao Rio de Janeiro, foi a melhor. Passei dois dias quase inteiros usando uma sandália nova e linda amarela, que só foi usada duas vezes. Tenho outras duas intactas, uma de couro cru, outra preta.
Mas esse desejo sempre é confrontado em meu cérebro por uma constatação, o conforto de usar jeans e tênis para trabalhar. Na TV subo e desço correndo (principalmente quando o jornal está no ar) dois lances enormes de escada várias vezes ao dia, porque as ilhas de edição ficam no andar de cima e a redação, no de baixo.
No jornal, eu me lembro de um dia que fui trabalhar com a sandália mais alta que tenho, com o salto de couro bordado, linda. E fui cobrir uma invasão do MST a uma fazenda em Palmeiras de Goiás. Chegando lá, o fotógrafo foi para o meio do mato. Os sem-terra só falariam comigo se eu chegasse até lá. Desci do carro, decidida. Afinal, o que uma distanciazinha daquela representa para uma repórter como eu? Passar embaixo de arame? fácil. Mas o capim alto havia sido roçado, formava uma verdadeira armadilha: uma camada que escondia os buracos. Virei o pé no primeiro e quase antecipei o acidente de trabalho que teria depois, com uma sandália bem mais baixa. Voltei para o carro e esperei pelo fotógrafo.

sábado, 15 de agosto de 2009

Gato selvagem


Cá estou, de plantão na redação do jornal, tentando encontrar um pesquisador da UFG para complementar a matéria de um colega, quando me liga Vânia, minha protegida que mora no setor Madre Germana 2, na saída para Aragoiânia. Não resistiu, sabia que eu estaria aqui e ligou para contar o barraco que teve na rua da casa dela no início da noite de ontem (o Madre Germana é um assentamento urbano para famílias de baixa renda).

Vânia conta, divertida, que a vizinha viajou e pediu a outra vizinha para que regasse suas plantas enquanto ela estivesse ausente. Eis que a vizinha retornou e a outra saiu com essa: "cuidei de suas plantas e aproveitei para dar um trato no seu marido". Não prestou. O troca-tapa aconteceu no meio da rua mesmo. E Vânia ficou revoltada porque a vizinha assanhada levou a melhor sobre a vizinha botânica. Disse que hoje ela está toda machucada. "Não parece que lutou com outra mulher. Está toda arranhada, parece mais que lutou foi com um gato selvagem", contou.

Vânia é uma figura mesmo. Durante minhas férias, teve um dia que ligou na minha casa. Eu estava compenetrada, lendo, quando o telefone tocou. Ela conversou comigo. Uns cinco minutos depois, ou menos, ligou de novo. Estava preocupada, achou que minha voz estava triste. Minha protegida querendo me proteger de mim mesma. Não, eu não estava triste, só concentrada na leitura.

Vânia, seu marido e os seis filhos apareceram na minha vida de maneira diferente. Ela ligou no jornal e queria falar comigo. Disse que tinha uma reportagem assinada por mim, relativa a algo que ajudou uma família vizinha dela no Madre Germana. Queria que o jornal fizesse uma matéria para que ela conseguisse terminar a construção de sua casa. Expliquei que o jornal não costuma fazer esse tipo de reportagem, mas que tentaria ajudá-la. Contei a história a alguns amigos, levantamos um dinheiro e foi possível atender a seu pedido. Aí, acabei meio que adotando a família dela. Tornou-se uma amiga.

A filha dela, Carolina, me presentou com dois tapetes lindos (e ela nem sabia quanto aprecio artesanato), que coloquei em minha sala e no meu quarto. Quando marquei de ir até lá (na verdade, a primeira e única vez até hoje) para finalmente conhecer a amiga com quem só falava por telefone, Carolina perguntou se poderia matar aula para me esperar. Não deixei e até hoje ela é pesarosa por não ter me visto.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Evento

Todo repórter merece cobrir um evento, de vez em quando. Não deixei de manifestar isso para meu editor, o Hirose, quando ele me falou com a voz mais despreocupada do mundo: "Carlinha, você vai cobrir a marcha contra o aborto, às 15 horas, na Praça Cívica". Que bom. A passeata começou com uma hora e meia de atraso em relação ao horário previsto, a umidade relativa do ar deve ter ficado pouco acima de 20%, mas foi bom. Cheguei na redação, com meu objeto (é assim como as matérias são chamadas no Hermes, o software que o jornal adotou há uns dois anos) já pronto (diagramado, desenhado na página, no tamanho exato) e escrevi. Simples assim. Nem uma linha a mais, nem a menos.
Raramente ou quase nunca faço esse tipo de cobertura: eventos. Todos os dias pego as pautas mais pauleira, ou quase, da editoria. Frequentemente (não me acostumei ainda a escrever sem o trema) recebo alguma pauta mais leve e, no meio da tarde, normalmente depois do que chamo de "reunião dos gênios" (reunião dos editores do Popular, quando confabulam e tentam enriquecer o conteúdo das matérias, e levar os repórteres à completa exaustão), o Hirose muda minha pauta. Mas hoje ele só sorriu e disse que meu celular poderia tocar.
Mas não tocou. E eu cobri o evento, a marcha contra o aborto, que reuniu católicos, espíritas e evangélicos, além de maçons e outros bichos de pena. Mas quero justificar por que todo repórter tem o direito de cobrir alguma coisa assim, nem que seja como prêmio: pautas de jornal não são como de TV, que o repórter recebe com horário marcado, endereço, entrevistado definido. No nosso caso, o editor só fala o que quer da matéria. O repórter se vira. No máximo, o editor sugere um ou outro para ser ouvido.
Pesquisa do IBGE? PNAD? Pobre Carla Borges. Leva-se a tarde inteira fazendo cálculos, transformando-os em percentuais e informações e lá pelas 18 horas, com o gancho da matéria definido, parte-se atrás de especialistas e pelo menos um personagem para ilustrar a matéria. Uma das mais difíceis de encontrar (e não era pesquisa PNAD) foi uma jovem gestante que foi autorizada a interromper a gestação por causa de malformação (palavrinha) gravíssima do bebê, que não sobreviveria. Mas, apesar da decisão favorável da Justiça, ela decidiu ir até o fim. O bebê nasceu e morreu, claro. Moça muito bonita e educada, morava em um bairro chegando em Aragoiânia, mas me recebeu muito bem e deu um depoimento precioso.
Mas, voltando ao evento como direito do repórter. É fácil. Todas as informações estão em um só lugar. O entrevistado não está tentando escondê-las, ao contrário. Você chega, ouve as pessoas que tem de ouvir e observa. Além de tudo, revê amigos, principalmente os colegas de TV, que sempre estão nesse tipo de pauta, mas a gente, nunca. Perfeito. Eu merecia cobrir um evento, mas, como é tão raro, para mim transformou-se realmente em um evento.